Por Edvair Ribeiro
Prejulgamento misto velado-escancarado
Praticado na rotina do brasil miscigenado
Se a pessoa for preta ou cafuza
Ou se tiver a tez levemente amorenada
E se for morador dos guetos
Das comunas periféricas no mundo dos favelados
Ao ser avistado nas ruas será instintivamente evitado
Pelos desconfiados ”transeuntes de bem”
Pelos proprietários das lojas, das empresas, do mercado
Da alta sociedade, das igrejas e dos clubes fechados
São definidos de imediato
Pelo cidadão prevenido
Pelo polícia civil ou pelo polícia fardado
Como sendo um ser suspeito
Uma ameaça eminente um possível celerado
Precisa ser conferido com requintes de cuidados
Posto de cara na parede ter os tornozelos chutados
Fechado em chave de braço com mata leão imobilizado
Se protestar leva uns tapas para deixar de ser folgado
E pelo argumento de resistir
À abordagem do representante do estado
É posto no camburão e levado para se explicar
Perante o doutor delegado
Não importa se o indivíduo é retinto ou amorenado
Seja um universitário médico advogado
Seja um professor um artista
Ou de outra categoria da base do proletariado
O fato de não ter pele clara
Já é motivo da presunção d’uma culpa
Que o leva a ser um suspeito
Um perigo em potencial declarado
Já se pessoa tiver a pele clara
Rosto com traço caucasiano
Cabelos lisos e o “nariz afilado”
Ainda que tenha na história
Algum membro antepassado
Que tenha misturado sangue
Com preto ou com uma preta
Do plantel de escravizados
Se for considerado branco
Por um olhar apurado
O tratamento dispensado
Por ser branco declarado
É de natural respeito
Próprio dos privilegiados
Pode ser um estelionatário
Vestido num terno bem cortado
Pode ser um corrupto
Num mandato de deputado
Pode ser um senador
Descendente do senhor
Dos tempos coloniais
Ou mesmo o filho de um feitor
Contumaz abusador
Das filhas dos escravizados
Na ótica branca o branco
Possui direitos sagrados
O branco não rouba se apossa
Do que lhe pertence por direito
Ele toma por outorga
Numa escusa sessão de pleito
Heranças hereditárias
Que segrega fere mata
Vidas e sonhos dos pretos
Que logo após a lei áurea
Foram expulsos das senzalas
Para se abrigar nas favelas
Amontoados em guetos
A elite branca arma mãos pretas
Revestem seus corpos
De farda distintivos e autoridade
E os coloca a serviço da lei fria
Da instituição estado
Para aterrorizar e matar
Suprimir aniquilar
Os irmãos pretos nas comunidades
O estado branco
Mata preto queima índio
Queima matas mata rios
Usurpa oprime segrega
É praticante constante
Da vil monstruosidade
O estado branco
Edita renova diariamente
A chancela implacável da impunidade
As vezes com consentimento
Indiferente do preto alienado
Ou pela busca de aceitação
Do preto de alma branca
Por um lugar privilegiado
Próximo da casa grande
Ou por um passeio na janela
No ônibus da alta sociedade
O preto nessa sociedade
Sul-americana de pensamento
Predominante branco
Para não ser engolido
Pela cultura do dominador
Precisa alimentar diariamente
A todo instante
A gloriosa e sofrida
Consciência negra
Edvair Ribeiro 22 de novembro 2023





